Estudo global publicado na Nature Communications revela que rios com múltiplos canais — os chamados anabranching — são o tipo dominante na Terra, superando meandros e rios trançados.

Foto: Divulgação / Agência O Globo
Por décadas, livros didáticos ensinaram que os rios do mundo se dividem, sobretudo, entre meandros sinuosos e canais trançados. Um novo estudo internacional acaba de virar essa lógica de cabeça para baixo. Uma análise global inédita mostra que 51% de todos os trechos de rios aluviais do planeta seguem um padrão chamado “anabranching”, no qual o fluxo se divide em múltiplos canais separados por ilhas estáveis e vegetadas — um tipo até agora tratado como exceção.
O levantamento foi publicado nesta quarta-feira (21), na revista Nature Communications e analisou cerca de 0,69 milhão de quilômetros de rios em todos os continentes, a partir de imagens de satélite de alta resolução e bases hidrográficas globais.
“Nossos resultados revelam uma dominância oculta de rios anabranching em escala planetária”, afirma o geomorfólogo Edward Park, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, um dos autores do estudo. “Isso desafia conceitos fundamentais da geomorfologia fluvial.”
Um novo mapa dos rios do mundo
A equipe, liderada por pesquisadores da China, Singapura, Brasil e Estados Unidos, combinou quatro décadas de imagens do programa Landsat com bancos de dados globais de hidrografia. O resultado foi o primeiro mapa quantitativo dos padrões de canais fluviais aluviais em escala global.
Os números impressionam: 51% dos rios são anabranching; 24% são meandrantes; 18% são retos; apenas 7% são rios trançados (braided).
Até mesmo em regiões montanhosas — onde se supunha que rios multicanais fossem raros — os anabranching representam 50% dos trechos aluviais. Em áreas costeiras, essa proporção sobe para 58%.
Brasil no centro da descoberta
O Brasil aparece como peça-chave nesse redesenho do mapa fluvial global. Grandes bacias como a do São Francisco e do Amazonas apresentam extensos trechos dominados por canais anabranching. Segundo o estudo, em algumas bacias médias, esse padrão chega a mais de 75% da extensão dos rios.
Para o pesquisador Edgardo M. Latrubesse, da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coautor do trabalho, o dado tem implicações diretas para a gestão ambiental: “Esses rios concentram as maiores planícies de inundação do planeta. Ignorá-los significa subestimar sua importância para a biodiversidade, o sequestro de carbono e a dinâmica de sedimentos.”
Os cientistas alertam que a descoberta não é apenas acadêmica. Rios anabranching desempenham papel central na resiliência ecológica, na conectividade entre canais e planícies aluviais e no amortecimento de cheias extremas. Em um cenário de mudanças climáticas, compreender esse padrão pode ser decisivo para políticas de adaptação e prevenção de desastres.
Além disso, o estudo sugere que registros geológicos do passado podem ter subestimado sistematicamente a presença de rios anabranching, distorcendo interpretações sobre a evolução da paisagem terrestre ao longo de milhões de anos.
Uma mudança de paradigma
Ao fim do artigo, os pesquisadores defendem uma revisão profunda dos modelos clássicos da geomorfologia fluvial.
“Os rios anabranching não são anomalias”, concluem os autores. “Eles representam o padrão dominante dos grandes sistemas fluviais da Terra e precisam ocupar um lugar central na ciência, no planejamento ambiental e na gestão das águas.”
Se confirmada por estudos futuros, a descoberta pode redefinir como a humanidade entende — e administra — seus rios em um planeta cada vez mais pressionado pelo clima.
Mais informações
Luo, Q., Park, E., Latrubesse, EM et al. Padrões globais de canais aluviais. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68569-z